Estejam presentes pelo testemunho da própria vida humana, bem como por iniciativas corajosas, quer individuais quer comunitárias, na promoção da justiça, particulamente no âmbito da vida pública, comprometendo-se com opções concretas e coerentes com a sua fé. (Art 15 Regra da OFS)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Manipulação pela fome

Dar pão a quem tem fome é sinal de generosidade, de humanidade, de compaixão. Aqueles que são lembrados por essa opção pelos pobres são geralmente vistos como bons homens, exemplares – embora quase ninguém os siga o exemplo. Mas o que dizer quando essa opção de multiplicação do sinal da vida é feita pelo narcotráfico? Por aqueles que deterioram a vida humana? O que está por trás disso?

Sexta-feira, 09 de dezembro de 2011, dia que escrevo, eis que me levanto e vou ao bar mais próximo e peço um real de pão. Nada mais comum, nada mais rotineiro! Porém ouço a seguinte resposta ao fazer o meu pedido: “Você não quer esse aqui que alguém deixou pago?” Eu já sabia, tinha ouvido falar no dia anterior, mas não tinha acreditado – ou não queria – que agora toda sexta, sábado e domingo o pão é de “graça”. O narcotráfico decidiu, em sua imensa bondade, dar o pão a quem tem fome!

Manipuladores e covardes! Se aproveitam da pobreza e da fome do povo para serem aceitos. Ainda fazem bailes – com os artistas do funk e pagode – para conseguir a resignação da população local. Na verdade esta é uma “nova” técnica capitalista: tornar o ambiente de “trabalho” confortável para que este renda mais. Se a população não se sente mais incomodada pelo narcotráfico, e ainda recebe deste privilégios, como ensinar para nossos filhos que estes são maus? Como mobilizar a população pela busca de direitos junto ao governo se aqueles, que antes eram os vilões, agora, são os “agentes comunitários” que solucionam os problemas concretos, a saber, panis et circenses?

Mas o Governo do Estado não está pacificando os morros? Pode ser, mas não aqui. Não posso dizer como está a vida nas comunidades pacificadas, mas digo – com propriedade – como é aqui onde moro: A criminalidade aumentou; os bandidos expulsos de seus territórios se refugiaram nas áreas em torno da cidade maravilhosa; São Gonçalo é uma ilha de criminosos. E quando vai chegar o Governo? Bom, se conseguirmos promover as olimpíadas aqui, quem sabe ele não chegue. É de conhecimento geral que as medidas tomadas pelos governos federal e estadual visam a cidade do Rio. Quanto menor se vê o Redentor, menos proteção. Se não o vê mais...

Voltando ao pão nosso de cada dia, poderiam me apontar, os desavisados, dois colaboradores da estratégia narcotraficante: os donos do bar, que aceitaram o dinheiro e o povo que com prazer se delicia do pão do crime. Digo-vos, não vos precipiteis! Que poder tem uns simples mercadores de dizer não ao projeto do crime? Poderiam estes dizê-lo arriscando o próprio meio de subsistência. Para dar um exemplo, quando morre um traficante os bares e lojas da região têm que ser fechados em sinal de luto. Menos ainda é a culpa do povo. Este tem fome, e o pouco que economiza já é a paga da passagem – diga-se aqui, outro crime organizado. Pode parecer até brincadeira dizer que economizar um real é muito, mas se se ver uma pessoa pedindo um real de mortadela porque este lhe sobrou, vamos começar a entender a questão.


(Obs.: A foto usada é meramente ilustrativa)

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